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Profecias Proféticas
Por Eduardo Starosta
Então mais um ano está chegando ao seu final. Entre os preparativos para o Natal , Reveillon, fechamento de balanços e férias na praia, são realmente poucos aqueles que não se deixam afetar com a perspectiva de um novo reinício, que normalmente é revigorante. Claro, sempre vai haver um ou outro ranzinza, com aquele disfarçado prazer de dar um banho de água fria na esperança alheia.
Mas o ser humano é, em essência, um animal dado ao misticismo, especialmente quando é o conhecimento do futuro que está em jogo. Salvo raras e teimosas exceções, até os maiores pregadores do que hoje conhecemos como lógica formal, não resistem - quando não tem ninguém olhando, é claro - a dar uma olhadela nas previsões para o seu signo do horóscopo no ano que se aproxima.
Com a popularização da internet, as oportunidades de saciar a curiosidade são ainda mais amplas, com o famoso tarot, runas, búzios e o outros instrumentos de adivinhação oferecidos virtualmente. Mas a maior atração mesmo, são os babalorixás que ao mesmo tempo em que profetizam qual o artista da moda que vai casar ou quebrar nariz, formulam expectativas ambientais, políticas, econômicas e sociais para o futuro próximo. Mas a coisa fica realmente interessante quando um ou mais desses profetas começam a acertar seus prognósticos.
Coincidência? Pura sorte? Real capacidade de ver o futuro? Esta é uma resposta que vai ser montada somente a partir das experiências e crenças individuais de cada um. Mas sobre tudo isto há uma pergunta fundamental: é possível prever o futuro?
A resposta, objetivamente, é sim. Na verdade, a coisa é bem mais fácil do que parece. Vamos imaginar aquela velha e tradicional brincadeira de criança de mau gosto: o moleque, ao reparar que a coleguinha vai sentar, puxa cadeira. Quem está observando a cena não precisa consultar uma cigana para ter a certeza de que a menina vai direto para o chão em poucos segundos. Da mesma forma, mas com um pouco mais de sofisticação, é plenamente razoável observar a rota inercial dos acontecimentos e indicar o que irá acontecer no futuro.
É exatamente assim que se constroem os cenários econômicos. Avalia-se o comportamento de cada uma das variáveis consideradas relevantes, executando-se cruzamento entre elas, que acabam dando num forte indicativo do que se tornará a realidade dos próximos meses.
Sendo assim, podemos adiantar alguns aspectos referentes aos resultados de 2006. O ano não será lá muito fácil, mas a economia deverá fechar com crescimento moderado (não mais do que 3,5%), em função da fraca base de comparação, especialmente com o segundo semestre de 2005. As condições para isso serão dadas por indicadores um tanto quanto contraditórios:
As exportações deverão cair ou estagnar, na melhor das hipóteses. Isto ocorrerá porque mesmo havendo recuperação da defasagem cambial (o dólar não ficará abaixo de R$ 2,60 por muito tempo), a retomada de contratos industriais de venda ao exterior não é feita da noite para o dia, exigindo, além da competitividade do preço, a reconquista da confiabilidade do cliente no fornecimento de longo prazo, situação esta já comprometida em diversos segmentos nacionais;
No mercado interno, a boa notícia é que os juros básicos (SELIC) continuarão recuando, mesmo que a inflação volte a subir. A razão para isto não é simplesmente econômica, mas política. Segundo as últimas projeções dos institutos de pesquisa, se a eleição presidencial fosse hoje, o Presidente da República não seria reeleito. É claro que isto está intimamente relacionado com os escândalos políticos e frustrações de expectativas da população. Para parar de reclamar, o povo quer docinhos. Sendo assim, a continuidade da queda sistemática da SELIC deverá começar a surtir efeito no consumo e no emprego a partir do segundo semestre do ano que vem, quando os palanques estarão fazendo festa com resultados de crescimento. É claro, as bases de sustentação deste tipo de resultado econômico são tão sólidas quanto um cubo de gelo. Mas devemos reconhecer que o que vem valendo nas disputas eleitorais brasileiras é a embalagem dos presentes, que normalmente não são lá muito agradáveis depois de abertos.
Mas mesmo com a queda do custo do dinheiro, não seria correto esperar um espetáculo de consumo. Em 2004 o brasileiro pisou fundo no acelerador das compras - 9,5% de crescimento do comércio varejista - diante de uma renda média que não evoluiu mais do que 3,5%. É lógico que a diferença ficou por conta do aumento do grau de endividamento das famílias que, se não obtiverem melhoria relevante no nível de renda, acabarão (e já está acontecendo) sendo obrigadas a limitar o consumo presente, ou até mesmo adiar o pagamento das prestações, o que significa inadimplência.
Mas já que estaremos em ano eleitoral, é claro que o governo federal, os estaduais e prefeituras que puderem gastar mais para mostrar serviço, vão fazê-lo sem pensar duas vezes. Apesar disto ser contrário à idéia de ajuste fiscal para equilibrar as contas públicas e reduzir impostos, no curto prazo haverá uma injeção de dinheiro na economia, que também terá a companhia de um polpudo aumento do salário mínimo, o qual por sua vez, alavancará a produção da indústria farmacêutica, via o aumento da demanda de analgésicos para combater as dores de cabeça dos gestores previdenciários.
Assim, caro leitor, fica provado que profetizar não é algo de outro mundo. Basta apenas conhecer os principais aspectos que influenciam o sujeito das previsões e ter um pouco de sensibilidade, ou intuição, para identificar as conseqüências dos atos do presente e do passado no futuro.
Apesar do uso de métodos diferentes, as cartas de tarô, os búzios, a borra do café e as estatísticas econômicas buscam prever resultados. E logicamente cada qual terá seu grau de sucesso ou insucesso, por sorte, sensibilidade ou consistência científica. O julgamento da validade deste ou daquele modelo de previsão é estritamente pessoal.
A única certeza disso tudo é que se nos é dada a possibilidade de conhecer o futuro, conseqüentemente temos algum tipo de poder para mudá-lo a partir da alteração das condições inerciais que permeiam a nossa vida, a dinâmica das empresas e da sociedade.
Enfim, estamos dizendo que se o ambiente econômico para 2006 não é dos mais maravilhosos, nada impede que ações individuais acabem superando em força as tendências gerais do Brasil no ano que vem. Ou seja: o negócio é tomar as rédeas do próprio destino. Boas festas.
Fonte: Revista Pólo Digital
Eduardo Starosta é economista, presta serviços de assessoria econômica através da sua empresa – a ESTPLAN. Diariamente, divulga um relatório econômico para todo o Brasil, via Internet.
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Profecias Proféticas
Por Eduardo Starosta
Então mais um ano está chegando ao seu final. Entre os preparativos para o Natal , Reveillon, fechamento de balanços e férias na praia, são realmente poucos aqueles que não se deixam afetar com a perspectiva de um novo reinício, que normalmente é revigorante. Claro, sempre vai haver um ou outro ranzinza, com aquele disfarçado prazer de dar um banho de água fria na esperança alheia.
Mas o ser humano é, em essência, um animal dado ao misticismo, especialmente quando é o conhecimento do futuro que está em jogo. Salvo raras e teimosas exceções, até os maiores pregadores do que hoje conhecemos como lógica formal, não resistem - quando não tem ninguém olhando, é claro - a dar uma olhadela nas previsões para o seu signo do horóscopo no ano que se aproxima.
Com a popularização da internet, as oportunidades de saciar a curiosidade são ainda mais amplas, com o famoso tarot, runas, búzios e o outros instrumentos de adivinhação oferecidos virtualmente. Mas a maior atração mesmo, são os babalorixás que ao mesmo tempo em que profetizam qual o artista da moda que vai casar ou quebrar nariz, formulam expectativas ambientais, políticas, econômicas e sociais para o futuro próximo. Mas a coisa fica realmente interessante quando um ou mais desses profetas começam a acertar seus prognósticos.
Coincidência? Pura sorte? Real capacidade de ver o futuro? Esta é uma resposta que vai ser montada somente a partir das experiências e crenças individuais de cada um. Mas sobre tudo isto há uma pergunta fundamental: é possível prever o futuro?
A resposta, objetivamente, é sim. Na verdade, a coisa é bem mais fácil do que parece. Vamos imaginar aquela velha e tradicional brincadeira de criança de mau gosto: o moleque, ao reparar que a coleguinha vai sentar, puxa cadeira. Quem está observando a cena não precisa consultar uma cigana para ter a certeza de que a menina vai direto para o chão em poucos segundos. Da mesma forma, mas com um pouco mais de sofisticação, é plenamente razoável observar a rota inercial dos acontecimentos e indicar o que irá acontecer no futuro.
É exatamente assim que se constroem os cenários econômicos. Avalia-se o comportamento de cada uma das variáveis consideradas relevantes, executando-se cruzamento entre elas, que acabam dando num forte indicativo do que se tornará a realidade dos próximos meses.
Sendo assim, podemos adiantar alguns aspectos referentes aos resultados de 2006. O ano não será lá muito fácil, mas a economia deverá fechar com crescimento moderado (não mais do que 3,5%), em função da fraca base de comparação, especialmente com o segundo semestre de 2005. As condições para isso serão dadas por indicadores um tanto quanto contraditórios:
As exportações deverão cair ou estagnar, na melhor das hipóteses. Isto ocorrerá porque mesmo havendo recuperação da defasagem cambial (o dólar não ficará abaixo de R$ 2,60 por muito tempo), a retomada de contratos industriais de venda ao exterior não é feita da noite para o dia, exigindo, além da competitividade do preço, a reconquista da confiabilidade do cliente no fornecimento de longo prazo, situação esta já comprometida em diversos segmentos nacionais;
No mercado interno, a boa notícia é que os juros básicos (SELIC) continuarão recuando, mesmo que a inflação volte a subir. A razão para isto não é simplesmente econômica, mas política. Segundo as últimas projeções dos institutos de pesquisa, se a eleição presidencial fosse hoje, o Presidente da República não seria reeleito. É claro que isto está intimamente relacionado com os escândalos políticos e frustrações de expectativas da população. Para parar de reclamar, o povo quer docinhos. Sendo assim, a continuidade da queda sistemática da SELIC deverá começar a surtir efeito no consumo e no emprego a partir do segundo semestre do ano que vem, quando os palanques estarão fazendo festa com resultados de crescimento. É claro, as bases de sustentação deste tipo de resultado econômico são tão sólidas quanto um cubo de gelo. Mas devemos reconhecer que o que vem valendo nas disputas eleitorais brasileiras é a embalagem dos presentes, que normalmente não são lá muito agradáveis depois de abertos.
Mas mesmo com a queda do custo do dinheiro, não seria correto esperar um espetáculo de consumo. Em 2004 o brasileiro pisou fundo no acelerador das compras - 9,5% de crescimento do comércio varejista - diante de uma renda média que não evoluiu mais do que 3,5%. É lógico que a diferença ficou por conta do aumento do grau de endividamento das famílias que, se não obtiverem melhoria relevante no nível de renda, acabarão (e já está acontecendo) sendo obrigadas a limitar o consumo presente, ou até mesmo adiar o pagamento das prestações, o que significa inadimplência.
Mas já que estaremos em ano eleitoral, é claro que o governo federal, os estaduais e prefeituras que puderem gastar mais para mostrar serviço, vão fazê-lo sem pensar duas vezes. Apesar disto ser contrário à idéia de ajuste fiscal para equilibrar as contas públicas e reduzir impostos, no curto prazo haverá uma injeção de dinheiro na economia, que também terá a companhia de um polpudo aumento do salário mínimo, o qual por sua vez, alavancará a produção da indústria farmacêutica, via o aumento da demanda de analgésicos para combater as dores de cabeça dos gestores previdenciários.
Assim, caro leitor, fica provado que profetizar não é algo de outro mundo. Basta apenas conhecer os principais aspectos que influenciam o sujeito das previsões e ter um pouco de sensibilidade, ou intuição, para identificar as conseqüências dos atos do presente e do passado no futuro.
Apesar do uso de métodos diferentes, as cartas de tarô, os búzios, a borra do café e as estatísticas econômicas buscam prever resultados. E logicamente cada qual terá seu grau de sucesso ou insucesso, por sorte, sensibilidade ou consistência científica. O julgamento da validade deste ou daquele modelo de previsão é estritamente pessoal.
A única certeza disso tudo é que se nos é dada a possibilidade de conhecer o futuro, conseqüentemente temos algum tipo de poder para mudá-lo a partir da alteração das condições inerciais que permeiam a nossa vida, a dinâmica das empresas e da sociedade.
Enfim, estamos dizendo que se o ambiente econômico para 2006 não é dos mais maravilhosos, nada impede que ações individuais acabem superando em força as tendências gerais do Brasil no ano que vem. Ou seja: o negócio é tomar as rédeas do próprio destino. Boas festas.
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