Igualdade nos negócios

Após anos como executivo em multinacionais, César Nascimento percebeu que sua carreira havia estagnado. Ele conseguia chegar aos cargos mais altos na área financeira das empresas, mas sempre parava na porta das diretorias, por nenhuma razão aparente. Era o "teto de vidro" - uma barreira invisível, mas real, que impede que o executivo atinja posições mais altas. Para ele, o motivo era um só: discriminação.

Por causa disso, Nascimento, que é negro, resolveu "dar um pontapé em tudo" e começar seu próprio negócio, a empresa de assessoria contábil On Controller. Mas mesmo como proprietário, as dificuldades resultantes da discriminação não diminuíram. Obtenção de crédito e dificuldades de venda tornaram-se rotina. Incomodava também a expressão de surpresa das pessoas quando informadas que ele, negro, era o diretor da empresa.
Ciente dos obstáculos encontrados por empresários pertencentes a grupos discriminados como ele, Nascimento resolveu fazer algo voltado para a comunidade afro-brasileira, mas que tivesse um enfoque empresarial. "Queria sair do lugar-comum de ficar dizendo que existe racismo", explica. "Isso é fato." Nasceu então o Ciepeghepe - Centro de Integração Empresarial para Etnias e Grupos Historicamente Excluídos do Progresso Econômico.

Criado em 1999 a partir do modelo do National Minority Supplier Development Council (NMSDC), organização norte-americana sediada em New York, a proposta é promover, através de negócios, a inclusão de micro e pequenos empresários pertencentes aos grupos tradicionalmente excluídos - negros, descendentes de índios e portadores de deficiência física - no mercado. Em outras palavras: o Ciepeghepe atua como uma ponte entre pequenas empresas e corporações, aumentando a diversidade nos negócios.

A ação se dá em duas frentes. De um lado, juntamente com o Sebrae e a Fundação Getúlio Vargas, a organização identifica, cadastra, treina e certifica pequenos empresários pertencentes a GTEs - Grupos Tradicionalmente Excluídos. Desde maio já foram certificadas 50 empresas e 200 outras estão em negociação, a maioria nas áreas de comércio, serviços e manufatura. De outro lado, é desenvolvido um trabalho de sensibilização em grandes corporações para que elas se tornem associadas e incluam certificados em sua carteira de fornecedores.

"Isso não é paternalismo nem caridade. É business," diz Maria Hyeronides Lima, presidente executiva do Ciepeghepe. "As empresas têm que ter competência e competitividade, senão vão continuar no mesmo lugar."
Dados do NMSDC mostram que negócios gerados entre membros corporativos da organização norte-americana e pequenas empresas atingiram US$ 47,3 bilhões em 1999, chegando a US$ 50 bilhões em 2000.

O aspecto social da iniciativa é inegável, mas os participantes enfatizam que o enfoque das parcerias é basicamente empresarial. Foi com o intuito de aumentar suas opções que a Budai Indústria Metalúrgica, fornecedora de peças e projetos para a indústria automobilística com sede em Jandira (interior de São Paulo), associou-se ao Ciepeghepe em maio.
"Dando oportunidade aos GTEs nós aumentamos a nossa lista de fornecedores", diz Mário Jorge Nyari, diretor financeiro da empresa. "Ela vai entrar como concorrente normal. Não vai haver caridade - quem tem o melhor preço e a melhor qualidade ganha a concorrência."

Como ainda não existe uma cultura de diversidade no Brasil, o Ciepeghepe está tentando atingir inicialmente as empresas americanas no País, que já trazem essa noção de suas matrizes. A estratégia parece estar dando certo. A maioria das empresas associadas são americanas, como a Delta Airlines, ou de origem americana, como a Xerox do Brasil e a Du Pont do Brasil.
As expectativas para o trabalho desenvolvido pelo Ciepeghepe são otimistas: espera-se que o valor de negócios gerados por essas parcerias atinja US$ 1 milhão até o final de 2002, segundo a presidente da organização. Osmar Teixeira Gaspar, sócio-gerente da Allmar Turismo Ltda., outro empresário negro, diz que o acesso a grandes corporações, geralmente limitado a empresas que já dominam o mercado, trará resultados claros ao faturamento de pequenas empresas.

"A aglutinação dessas minorias fará com que elas se tornem uma maioria, um instrumento de barganha que vai proporcionar conquista de espaço no mercado brasileiro", prevê.
Se a tendência seguir a experiência norte-americana, o número de empresas pertencentes a grupos excluídos vai continuar crescendo, gerando empregos e receita para o país. Estatísticas recentes do Departamento de Comércio americano revelam que estes negócios cresceram quatro vezes mais rápido que as empresas americanas entre 1992 e 1997, passando de 2,1 milhões para 2,8 milhões. A taxa de crescimento de 30% é mais do que quatro vezes maior do que a média de 7% de todas as companhias.

Especialistas apontam que a diversificação do mercado e a inclusão de minorias é uma resposta ao processo de globalização e cada vez mais um pré-requisito para uma economia bem-sucedida.

"A realidade em países como o Brasil é que uma parte significante da população está à margem do jogo econômico", diz Steven Sims, vice-presidente da NMSDC. "Mas se o Brasil quiser competir com outros países, não existe outra opção a não ser incluí-los."

Revista UpDate


Igualdade nos negócios

Após anos como executivo em multinacionais, César Nascimento percebeu que sua carreira havia estagnado. Ele conseguia chegar aos cargos mais altos na área financeira das empresas, mas sempre parava na porta das diretorias, por nenhuma razão aparente. Era o "teto de vidro" - uma barreira invisível, mas real, que impede que o executivo atinja posições mais altas. Para ele, o motivo era um só: discriminação.

Por causa disso, Nascimento, que é negro, resolveu "dar um pontapé em tudo" e começar seu próprio negócio, a empresa de assessoria contábil On Controller. Mas mesmo como proprietário, as dificuldades resultantes da discriminação não diminuíram. Obtenção de crédito e dificuldades de venda tornaram-se rotina. Incomodava também a expressão de surpresa das pessoas quando informadas que ele, negro, era o diretor da empresa.
Ciente dos obstáculos encontrados por empresários pertencentes a grupos discriminados como ele, Nascimento resolveu fazer algo voltado para a comunidade afro-brasileira, mas que tivesse um enfoque empresarial. "Queria sair do lugar-comum de ficar dizendo que existe racismo", explica. "Isso é fato." Nasceu então o Ciepeghepe - Centro de Integração Empresarial para Etnias e Grupos Historicamente Excluídos do Progresso Econômico.

Criado em 1999 a partir do modelo do National Minority Supplier Development Council (NMSDC), organização norte-americana sediada em New York, a proposta é promover, através de negócios, a inclusão de micro e pequenos empresários pertencentes aos grupos tradicionalmente excluídos - negros, descendentes de índios e portadores de deficiência física - no mercado. Em outras palavras: o Ciepeghepe atua como uma ponte entre pequenas empresas e corporações, aumentando a diversidade nos negócios.

A ação se dá em duas frentes. De um lado, juntamente com o Sebrae e a Fundação Getúlio Vargas, a organização identifica, cadastra, treina e certifica pequenos empresários pertencentes a GTEs - Grupos Tradicionalmente Excluídos. Desde maio já foram certificadas 50 empresas e 200 outras estão em negociação, a maioria nas áreas de comércio, serviços e manufatura. De outro lado, é desenvolvido um trabalho de sensibilização em grandes corporações para que elas se tornem associadas e incluam certificados em sua carteira de fornecedores.

"Isso não é paternalismo nem caridade. É business," diz Maria Hyeronides Lima, presidente executiva do Ciepeghepe. "As empresas têm que ter competência e competitividade, senão vão continuar no mesmo lugar."
Dados do NMSDC mostram que negócios gerados entre membros corporativos da organização norte-americana e pequenas empresas atingiram US$ 47,3 bilhões em 1999, chegando a US$ 50 bilhões em 2000.

O aspecto social da iniciativa é inegável, mas os participantes enfatizam que o enfoque das parcerias é basicamente empresarial. Foi com o intuito de aumentar suas opções que a Budai Indústria Metalúrgica, fornecedora de peças e projetos para a indústria automobilística com sede em Jandira (interior de São Paulo), associou-se ao Ciepeghepe em maio.
"Dando oportunidade aos GTEs nós aumentamos a nossa lista de fornecedores", diz Mário Jorge Nyari, diretor financeiro da empresa. "Ela vai entrar como concorrente normal. Não vai haver caridade - quem tem o melhor preço e a melhor qualidade ganha a concorrência."

Como ainda não existe uma cultura de diversidade no Brasil, o Ciepeghepe está tentando atingir inicialmente as empresas americanas no País, que já trazem essa noção de suas matrizes. A estratégia parece estar dando certo. A maioria das empresas associadas são americanas, como a Delta Airlines, ou de origem americana, como a Xerox do Brasil e a Du Pont do Brasil.
As expectativas para o trabalho desenvolvido pelo Ciepeghepe são otimistas: espera-se que o valor de negócios gerados por essas parcerias atinja US$ 1 milhão até o final de 2002, segundo a presidente da organização. Osmar Teixeira Gaspar, sócio-gerente da Allmar Turismo Ltda., outro empresário negro, diz que o acesso a grandes corporações, geralmente limitado a empresas que já dominam o mercado, trará resultados claros ao faturamento de pequenas empresas.

"A aglutinação dessas minorias fará com que elas se tornem uma maioria, um instrumento de barganha que vai proporcionar conquista de espaço no mercado brasileiro", prevê.
Se a tendência seguir a experiência norte-americana, o número de empresas pertencentes a grupos excluídos vai continuar crescendo, gerando empregos e receita para o país. Estatísticas recentes do Departamento de Comércio americano revelam que estes negócios cresceram quatro vezes mais rápido que as empresas americanas entre 1992 e 1997, passando de 2,1 milhões para 2,8 milhões. A taxa de crescimento de 30% é mais do que quatro vezes maior do que a média de 7% de todas as companhias.

Especialistas apontam que a diversificação do mercado e a inclusão de minorias é uma resposta ao processo de globalização e cada vez mais um pré-requisito para uma economia bem-sucedida.

"A realidade em países como o Brasil é que uma parte significante da população está à margem do jogo econômico", diz Steven Sims, vice-presidente da NMSDC. "Mas se o Brasil quiser competir com outros países, não existe outra opção a não ser incluí-los."

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