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É como escovar os dentes
Visitava um amigo em Moscou, durante a reforma do seu apartamento. Ele contou-me que, para ter um assoalho, azulejo ou tapete com o acabamento a que estamos acostumados, teve de contratar operários finlandeses. Pela mesma razão, a reforma do palácio governamental era feita por operários turcos. Simplesmente, a tecnologia de assentar um tapete não existia na Rússia, apesar de todas as proezas espaciais.
Recentemente, estava em um escritório em Nova York onde um tapete estava sendo trocado. Os operários, ambos russo, faziam o trabalho com conhecimento de causa. Por que os russos de Nova York sabem colocar um tapete e os de Moscou não sabem?Por que os mexicanos semi-analfabetos trabalhando na construção civil em Houston são três vezes mais produtivos que os nordestinos semi-analfabetos
fazendo o mesmo trabalho em São Paulo? Um operário americano leva menos de um mês para construir um metro quadrado, o brasileiro leva quatro. Por quê?
A resposta é a mesma. Nos Estados Unidos, alguém ensinou certo. Havia alguém que sabia fazer bem e mostrou como era - na escola ou no
trabalho. Isso não acontece em Moscou ou São Paulo.
Quando garoto, vivi em uma fábrica perdida num grotão nas Minas Gerais, onde havia uma oficina com mais de 100 mecânicos. Todos trabalhavam com um padrão de qualidade europeu. Nenhum fez curso profissional. Aprenderam tudo com um técnico alemão e um engenheiro checo. Apenas dois bons profissionais ensinaram e impuseram padrões do que é bom e
do que é trabalho lambão.
Não é diferente na nossa indústria moderna,
em que há modelos para copiar, chegando até aos paroxismos da ISSO 9000, que codifica tudo. Nos Estados Unidos, há clareza acerca do que é trabalho bem-feito e uma minuciosa codificação de como se trabalho.
Faz alguns anos, ao embarcar para lá, recebi de meu futuro empregador, o Banco Mundial, um livreto ensinando, detalhadamente, como se mudar para Washington. Há guias para os menos iluminados.
Nossa sociedade é envergonhada com o lado prático das coisas, desde o professor que jamais aprende como manejar uma sala de aula até o
operário da construção que não tem com quem aprender certo. Gostamos das controvérsias doutrinários e das grandes teorias. Mas temos
grande vergonha de dar detalhes sobre assuntos concretos.
Em vez disso, glorificamos a improvisação. Mas nos esquecemos de que só improvisa certo quem já fez bem-feito muitas vezes. O "jeitinho" brasileiro é, na maior parte das vezes, pura ignorância de que
há uma forma certa e melhor de fazer. Quando o funcionário pára e pensa no que vai fazer, diante de uma situação de rotina, algo está errado. Rotina é como escovar os dentes, não precisa pensar. Pensar é para lidar com a situação nova.
Quando observamos a baixa produtividade da mão-de-obra, a tentação é culpar os trabalhadores. São improdutivos, sim, mas por duas razões. Uma é mais convencional, simplesmente não tiveram com quem aprender. Outra é que o trabalho foi desenhado de forma improdutiva. Por exemplo, as rotinas burocráticas são burras, desnecessárias e opacas. Muito da improdutividade tem a ver com quem desenhou a tarefa. Ou melhor, com quem deveria tê-la desenhado, mas deixou por conta de quem não possui o perfil para criar métodos e seqüências eficientes. Gastam-se energia e criatividade para reinventar o que se deveria
aprender no primeiro dia de trabalho.
A culpa pela incompetência não é dos executores, que são apenas vítimas, ou dos seus clientes, mas sim
de quem poderia e deveria ensinar, mas não o fez. E nem sempre é preciso aprender na escola ou no centro de formação. Aprende-se também pela prática. Mas tudo requer a codificação e a subseqüente automatização dos gestos profissionais.
Como criar uma indústria de turismo competitiva? Quando nossas lajes vão parar de infiltrar e nossos encanamentos de vazar? A resposta é monotonamente a mesma: alguém tem de descobrir a melhor maneira de fazer e ensinar a quem vai executar o trabalho, seja em cursos, seja na prática. Depois disso, o resto é como escovar os dentes.
VEJA - 26 de março 2003
Edição 1795
Claudio Moura Castro é economista e escreve para o Ponto de Vista da Revista Veja. |
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É como escovar os dentes
Visitava um amigo em Moscou, durante a reforma do seu apartamento. Ele contou-me que, para ter um assoalho, azulejo ou tapete com o acabamento a que estamos acostumados, teve de contratar operários finlandeses. Pela mesma razão, a reforma do palácio governamental era feita por operários turcos. Simplesmente, a tecnologia de assentar um tapete não existia na Rússia, apesar de todas as proezas espaciais.
Recentemente, estava em um escritório em Nova York onde um tapete estava sendo trocado. Os operários, ambos russo, faziam o trabalho com conhecimento de causa. Por que os russos de Nova York sabem colocar um tapete e os de Moscou não sabem?Por que os mexicanos semi-analfabetos trabalhando na construção civil em Houston são três vezes mais produtivos que os nordestinos semi-analfabetos
fazendo o mesmo trabalho em São Paulo? Um operário americano leva menos de um mês para construir um metro quadrado, o brasileiro leva quatro. Por quê?
A resposta é a mesma. Nos Estados Unidos, alguém ensinou certo. Havia alguém que sabia fazer bem e mostrou como era - na escola ou no
trabalho. Isso não acontece em Moscou ou São Paulo.
Quando garoto, vivi em uma fábrica perdida num grotão nas Minas Gerais, onde havia uma oficina com mais de 100 mecânicos. Todos trabalhavam com um padrão de qualidade europeu. Nenhum fez curso profissional. Aprenderam tudo com um técnico alemão e um engenheiro checo. Apenas dois bons profissionais ensinaram e impuseram padrões do que é bom e
do que é trabalho lambão.
Não é diferente na nossa indústria moderna,
em que há modelos para copiar, chegando até aos paroxismos da ISSO 9000, que codifica tudo. Nos Estados Unidos, há clareza acerca do que é trabalho bem-feito e uma minuciosa codificação de como se trabalho.
Faz alguns anos, ao embarcar para lá, recebi de meu futuro empregador, o Banco Mundial, um livreto ensinando, detalhadamente, como se mudar para Washington. Há guias para os menos iluminados.
Nossa sociedade é envergonhada com o lado prático das coisas, desde o professor que jamais aprende como manejar uma sala de aula até o
operário da construção que não tem com quem aprender certo. Gostamos das controvérsias doutrinários e das grandes teorias. Mas temos
grande vergonha de dar detalhes sobre assuntos concretos.
Em vez disso, glorificamos a improvisação. Mas nos esquecemos de que só improvisa certo quem já fez bem-feito muitas vezes. O "jeitinho" brasileiro é, na maior parte das vezes, pura ignorância de que
há uma forma certa e melhor de fazer. Quando o funcionário pára e pensa no que vai fazer, diante de uma situação de rotina, algo está errado. Rotina é como escovar os dentes, não precisa pensar. Pensar é para lidar com a situação nova.
Quando observamos a baixa produtividade da mão-de-obra, a tentação é culpar os trabalhadores. São improdutivos, sim, mas por duas razões. Uma é mais convencional, simplesmente não tiveram com quem aprender. Outra é que o trabalho foi desenhado de forma improdutiva. Por exemplo, as rotinas burocráticas são burras, desnecessárias e opacas. Muito da improdutividade tem a ver com quem desenhou a tarefa. Ou melhor, com quem deveria tê-la desenhado, mas deixou por conta de quem não possui o perfil para criar métodos e seqüências eficientes. Gastam-se energia e criatividade para reinventar o que se deveria
aprender no primeiro dia de trabalho.
A culpa pela incompetência não é dos executores, que são apenas vítimas, ou dos seus clientes, mas sim
de quem poderia e deveria ensinar, mas não o fez. E nem sempre é preciso aprender na escola ou no centro de formação. Aprende-se também pela prática. Mas tudo requer a codificação e a subseqüente automatização dos gestos profissionais.
Como criar uma indústria de turismo competitiva? Quando nossas lajes vão parar de infiltrar e nossos encanamentos de vazar? A resposta é monotonamente a mesma: alguém tem de descobrir a melhor maneira de fazer e ensinar a quem vai executar o trabalho, seja em cursos, seja na prática. Depois disso, o resto é como escovar os dentes.
VEJA - 26 de março 2003
Edição 1795
Claudio Moura Castro é economista e escreve para o Ponto de Vista da Revista Veja. |
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